O conviver é um bocado complicado quando levamos em consideração as oscilações cotidianas, mas permitir-se enquanto pequena criatura em busca de linhas favoráveis ao enriquecimento pessoal, é demasiadamente satisfatório. Não falo enriquecimento financeiro, talvez um tantinho intelectual. Mas pessoalmente gosto das grandezas de espírito, aquelas que me completam mais do que qualquer outra. As que me retiram da simplicidade de ser só um corpo vagando num espaço entre tantos outros, sem oferecer nada a qualquer um deles. Gosto dos encontros ‘chocantes’, marcantes; os que ficam pra sempre, sem dúvidas, sem questionamentos quanto ao existir e por isso já bastar. Sim, sim, talvez também valorize o colhimento do que não é duradouro. Mas gostar, gostar mesmo, só das durações. Elas sim me completam, me jogam contra o eterno trabalho de aceitar o fim.
Está ai a minha grande questão, o fim. Nunca entendi, desde criança, como podemos aceitar tal quebra, tal limite entre passado e presente. Talvez essa interrupção não desconstrua a eternidade do que foi dividido a cada dia significativamente, mas existe a falta físico-psicológica que marca; que maltrata. E é essa a realidade que não somos, digo, não sou capaz de aceitar. Tudo bem, em termos de perda física e também espiritual nunca tive grandes, mas trabalho isso dia-a-dia com experiências mais simples, no afastamento de um amigo, de um parente.....Questiono e interrogo-me a cerca de como seria capaz de suportar tal evolução. E aí, paro, volto e me reconstruo a partir do ponto inicial. Com resquícios do passado, claro, não sou perfeita.
Sou simples, gosto das coisas simples. Elas me dão prazer mais do que qualquer outra, mais do que as complexas e desnecessárias. Estou mais para festa no sítio do que para 'buffet' em grandes salas com pessoas bem arrumadas e com suas máscaras hipócritas. Claro que são, todos nós temos dela um pouco. Não só nos grandes salões elas se instalam. Mas prefiro que existam onde sinto que há mais verdades, onde eu busco a minha realidade, a minha essência. De onde eu puxo toda uma infância que eu gostaria de ter vivido e não o fiz. E sinceramente não é em grandes salões o meu desejo de ter vivido enquanto criança, ou em qualquer outra fase da vida. Gosto de cheiro de mato, do orvalho da madrugada, de tomar banho de chuva sentindo o sabor da pureza; pisar na terra, madrugar por horas na escuridão bucólica, onde se pode ter a fogueira ao redor de grandes seres, cantarolando músicas que nos presenteei com tudo que necessitamos. É nesse lugar que minha alma se renova, se [ré] constrói. A verdade é que tenho pouco disso, queria mais. Mais verdade, mais simplicidade, mais limpeza no [meu] ser, mais música.
Por que ela sim me entende, dialoga comigo, ameniza minhas dores, minhas necessidades, meus amores. É um encontro sensível e estupendo. Que me tira da realidade para uma outra mais leve e bonita/breve. Uma constituição de entendimentos longínquos capaz de satisfazer a gregos e troianos. A fórmula mais perfeita que se poderia obter da ligação entre sensibilidade e sentimento. Esse sim é envolvido direta e indiretamente por ela. A música me faz sair do lugar onde estou e viajar pelo passado e presente em frações de segundos, milésimos. A minha melhor dança das horas, o meu melhor perfume.
Acredito que aqui cabe parafrasea-lá. Maria Bethânia diz: “música é perfume”. E não é por acaso que a reconheci/escolhi ser a preferida.
Em um jogo mágico de interpretação, sensibilidade, bom gosto e inteligência ela faz com que a tal música, sobre quem eu falava há pouco, seja tudo o que mais prezo no campo da arte. Sim, mais do que peça, mais do que filme, do que pintura...Ela me toca significativamente.
Para mim, música também é perfume. Ambos me remetem a lugares, pessoas, coisas, gestos, particularidades em mínimos, e ao mesmo tempo máximos, lapsos. Quando escuto uma música que já tenha feito parte de algum momento especial, imediatamente abro um sorriso despretensioso e automático. Conseqüência das recordações obtidas através da sonoridade que instiga a sensibilidade. É quando eu consigo materializar a música, através dos momentos.
O mesmo se dá quando na convivência condiciono, por mais que involuntariamente, minha mente a relembrar coisas/pessoas a partir do cheiro. É instantânea a ligação que faço entre o aroma e a pessoa, o lugar, o instante.
Assim me completo. Só assim posso trazer para o presente um passado feliz que me deu prazer. De que outra forma seria possível, se vivemos deixando pra traz importâncias, plenitudes de momentos sublimes? A meu ver, de nenhuma outra forma se não a partir da memória, da audição e do olfato. Alem de pessoas, claro. Sem elas nada seria completo. Não existiria troca, entrega, experiência e, sobretudo, sofrimento. Ele também move esses sentidos com a força maior. É quem nos impulsiona em busca do oposto, a felicidade. Anfitriã do nosso retorno pós-sofrimento.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
A simples teoria do [meu] ‘ser’
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menina quanto a infância vou te dizer que não é naaada legal vc tomar banho em um sitio a noite sem luz elétrica quando a ameaça de constantes sapos te ronda hein. ficaadica
ResponderExcluirhehehe
ai meu deus....que falta de sensibilidade....=/ deprimente, dedel.
ResponderExcluirrsrs
=*
E esse texto???
ResponderExcluirÓTIMO!
ãi, tb gostei dele! =D
ResponderExcluirnum é insensibilidade, é trauma de infância mesmo. e aí vc tem que admitir e me dar os parabéns que em woodstock tomei banho em condições que lembravam muito essa situação
ResponderExcluirai, meu deus! Vamos tratar esses traumas de infância juntos?! De preferência na mesa do bar[o meu divã]?!?! rsrs Axu justo! ;)
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