Quando? Quando é que essa moça vai me notar?
Ele pensava a cada encontro com seu novo motivo de suspiros e sonhos futuros. Linda, cabelos castanhos e compridos, baixa, olhos de quem entende o que ver, e postura de alguém que mistura ousadia e meiguice sem demonstrar fragilidade. Mas como pode apaixonar-se tão facilmente sem trocar sequer meias palavras?
Lucas era um bom moço, mas afastava as pretendentes com suas manias esquisitas, que por sinal não eram poucas. Trabalhava numa loja de cds e tinha a incrível facilidade de se apaixonar por pessoas com as quais mantinha mínimos ou inexistentes contatos. Ele era, e porque não dizer, um amante vulnerável a mudar de idéia diante do primeiro encontro. E tremia muito antes de decidir chegar em alguém.
‘Mas com ela seria diferente. ’ Era o que ele pensava quando trilhava o caminho de volta pra casa, onde sempre a encontrava por tomar seu café ao ler um livro, ou a conversar com velhos senhores que por ali passavam. Ster sequer notava que Lucas a espionava por longos e prazerosos minutos, até ser interrompido por transeuntes que seguiam seu caminho.
Nada mais na vida fazia tanta diferença pra ele, pois todos os dias a monotonia de sua rotina o tirava a vontade de viver o novo. E era esse o medo de se aproximar de pessoas como Ster, que aparentemente ousavam extrapolar os limites dos caretas.
Todos os dias, aquele mesmo percurso, o mesmo cumprimento para quem já o conhecia, namorava Ster à distância por alguns minutos e depois seguia para o trabalho. Fora as horas que passava a noite estudando pra chegar às etapas evidentes que um homem bem-sucedido necessita alcançar.
E foi dito e feito, Lucas conseguira passar naquele mesmo ano numa das faculdades mais bem requisitadas, e logo, logo arranjou emprego na área que tanto sonhava, deixando pra trás a velha loja de discos que tanto lhe dava prazer, e algumas das manias esquisitas. Ster continuava linda, com seus caminhos trilhados e ousando desistir de algum deles quando lhe dava na telha.
Por várias vezes ele esteve perto de trocar algumas frases com Ster, mas não o fez pelo medo que sempre carregava na mochila, pra onde fosse.
O tempo passou e Ster não estava mais por perto. Lucas continuou fechado em seu mundinho, que ele nunca escolhe por onde vai desenrolar. Apenas segue as regras impostas e não se permite ousar e sair da linha em busca de algo que o faça feliz.
Não existia nos traçados da vida dele a possibilidade de largar tudo até então garantido, a fim de investir no amor; em um amor, seja lá pelo que for. Ou qualquer outro sentimentos que lhe tirasse os pés do chão, com a possibilidade de voar, e de também cair!
Das manias que lhe sobraram a que mais o perseguia e incomodava era a de ficar sempre no meio do caminho, no lugar onde só cabe o desejo. Quando a covardia invade o espaço e torna tudo um vislumbre apenas almejável. Mas disso tudo algumas coisas sempre sobram, e nesse caso, sobra a dúvida do que poderia ter acontecido entre ele e Ster, e a velha monotonia dos dias que se seguem.
De fato, o forte de Lucas não era ousar!
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