quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A carta.

Depois de ler a carta, a menina Luma talvez não voltasse nunca mais a ser a mesma. Ou quem sabe a única a entender.

Lucas sempre foi um homem muito dedicado ao trabalho. Esforçado e honesto se destacou sempre como um ótimo profissional. Seu único defeito era o exagero com a bebida que com o tempo tornou-se um fardo, tanto para ele, quanto para a família.
Tinha uma esposa dedicada, três filhos: Luma, a quem parecia dedicar sua maior atenção, Tárcilo e Raul, os últimos mais velhos não menos amados.
Desde quando tornou-se pai sempre fora carinhoso e engraçado, gostava de brincar com os filhos ao redor da casa onde mantinha um belo jardim, com um lago que o servia de refugio. Nas horas difíceis, ele ficava lá por horas, sentado; conversando com alguém que ele afirmava aparecer sempre nos momentos mais difíceis, para tirar dúvidas ou para discutir erros do passado. Ninguém nunca ousou perguntar de quem se tratava, mas todos tinham a certeza de que era alguém especial.

O tempo passou, as coisas mudaram, Lucas tornou-se frio, calado, bebendo cada vez mais, alterando a voz tanto com os filhos quanto com a esposa, que também se tornara distante, talvez em decorrência de seu próprio afastamento.
Alguns diziam que ele já poderia ser considerado um viciado, outros negavam; principalmente os filhos, que tinham no pai um exemplo de homem. Imagem que não queriam desmanchar.
Mas mesmo sendo Lucas um homem, embora antigamente, feliz, de espírito aberto e claramente positivo. Existia desde sempre algo que o bloqueava e o levava a sentar em frente ao lago, a conversar por horas. E ai de quem ousasse se aproximar, a não ser Luma, que vivia angustiada com a dúvida, mas era pequena demais para entender o que o pai por vezes deixava ouvir.

Mais a frente a família não era mais a mesma, nada do antigo existia, a não ser o amor de todos eles, o sentimento que os unia.
Lucas ficou cada vez mais calado, quieto. Sua esposa preferia não se aproximar, e os filhos, quando tentavam, eram afastados por ele, que mesmo sem grosserias, os mantinham distantes. Lucas era agora só angustia, dúvidas, passou a escrever e queimar todas as folhas logo após. A casa tornou-se um silêncio profundo, de onde só se ouviam ‘bom dia’ e ‘boa noite’.

Luma já era grande para entender que o pai passava por problemas, e que a pessoa do lago por vezes o deixava pior. Certa manhã, ela acordou com berros e gritos. Assustada e intuitivamente já prevendo o que teria acontecido, levantou-se e correu de imediato para o quarto do pai, a quem não encontrou. Quando olhou para o lago, estavam todos lá, ao redor, lamentando com profunda dor o que o pai teria praticado. Era suicídio o nome do ato, e ela já tinha idade para entender.

O tempo passou e muito depois Luma encontrou meio a seus pertences uma carta estranha que ela leu a sós e descobriu que o pai tivera deixado explicando somente a ela coisas sobre ele e sobre o misterioso lago. Ela leu aos prantos o quanto, naquela época, o pai vivia triste e apavorado com dúvidas que não dividia com ninguém.
Dentro do lago existia a voz de seu avô, a quem seu pai nunca perdoara por todas as torturas que o fizera passar. Lucas explicou que sentava por horas a conversar, e por vezes se aborrecia com a falta de explicação para tantos traumas infantis. Ele não podia continuar vivendo angustiado enquanto a voz o perturbava com fatos antigos e dolorosos. Luma tornou-se a única a entender que seu pai foi embora em busca de explicações do passado, de onde nasciam seus maiores traumas.

No final da carta ele dizia: ‘A falta de explicações sobre o passado leva um homem à loucura, e se ele tem família, deixa também os seus um espelho dele. ’

Na verdade, o que Lucas não queria era tornar eterno o silêncio que passou a existir dentro de sua casa, quando ele passou a ser introspectivo em busca dos fantasmas de sua infância.

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