Depois de ler a carta, a menina Luma talvez não voltasse nunca mais a ser a mesma. Ou quem sabe a única a entender.
Lucas sempre foi um homem muito dedicado ao trabalho. Esforçado e honesto se destacou sempre como um ótimo profissional. Seu único defeito era o exagero com a bebida que com o tempo tornou-se um fardo, tanto para ele, quanto para a família.
Tinha uma esposa dedicada, três filhos: Luma, a quem parecia dedicar sua maior atenção, Tárcilo e Raul, os últimos mais velhos não menos amados.
Desde quando tornou-se pai sempre fora carinhoso e engraçado, gostava de brincar com os filhos ao redor da casa onde mantinha um belo jardim, com um lago que o servia de refugio. Nas horas difíceis, ele ficava lá por horas, sentado; conversando com alguém que ele afirmava aparecer sempre nos momentos mais difíceis, para tirar dúvidas ou para discutir erros do passado. Ninguém nunca ousou perguntar de quem se tratava, mas todos tinham a certeza de que era alguém especial.
O tempo passou, as coisas mudaram, Lucas tornou-se frio, calado, bebendo cada vez mais, alterando a voz tanto com os filhos quanto com a esposa, que também se tornara distante, talvez em decorrência de seu próprio afastamento.
Alguns diziam que ele já poderia ser considerado um viciado, outros negavam; principalmente os filhos, que tinham no pai um exemplo de homem. Imagem que não queriam desmanchar.
Mas mesmo sendo Lucas um homem, embora antigamente, feliz, de espírito aberto e claramente positivo. Existia desde sempre algo que o bloqueava e o levava a sentar em frente ao lago, a conversar por horas. E ai de quem ousasse se aproximar, a não ser Luma, que vivia angustiada com a dúvida, mas era pequena demais para entender o que o pai por vezes deixava ouvir.
Lucas ficou cada vez mais calado, quieto. Sua esposa preferia não se aproximar, e os filhos, quando tentavam, eram afastados por ele, que mesmo sem grosserias, os mantinham distantes. Lucas era agora só angustia, dúvidas, passou a escrever e queimar todas as folhas logo após. A casa tornou-se um silêncio profundo, de onde só se ouviam ‘bom dia’ e ‘boa noite’.
Dentro do lago existia a voz de seu avô, a quem seu pai nunca perdoara por todas as torturas que o fizera passar. Lucas explicou que sentava por horas a conversar, e por vezes se aborrecia com a falta de explicação para tantos traumas infantis. Ele não podia continuar vivendo angustiado enquanto a voz o perturbava com fatos antigos e dolorosos. Luma tornou-se a única a entender que seu pai foi embora em busca de explicações do passado, de onde nasciam seus maiores traumas.
Na verdade, o que Lucas não queria era tornar eterno o silêncio que passou a existir dentro de sua casa, quando ele passou a ser introspectivo em busca dos fantasmas de sua infância.
Nenhum comentário:
Postar um comentário