terça-feira, 15 de setembro de 2009

Flores, poeira e fantasia.

Todos os dias, a cada entardecer, ela sentava-se a espera do moço que vendia flores. Ele passava com freqüência natural em frente ao seu portão, oferecendo-lhe flores, das mais lindas e bem cuidadas, aos sensíveis transeuntes e moradores. Sempre sorrindo, leve, com ar de moço feliz, parecia não se preocupar com nada a não ser em esbanjar o pouco que lhe parecia pertencer. Não transparecia querer nada que não estivesse ao seu alcance.

Nem sempre recebia pagamento pelas flores, quase sempre um café, um pedaço de bolo que era vendido também diariamente pela senhora mais simpática da redondeza. Quem sempre lhe dava em troca de um belo sorriso, um meigo olhar de pessoa vivida e doce, e que, porem, parecia carregar grandes fardos, mas que nunca os fazia transparecer.

Ela, que aguardava pelas flores a cada por do sol, não se manifestava, sequer poderia ter por ele algo que fugisse à inocência de uma pessoa encantada com a gratuidade de belos sorrisos. Simplesmente sentava, aguardava, contemplava e seguia.

Poucos ali tinham sua sensibilidade, outrora percebida por ele, e incentivada com margaridas de cor intensa como seu olhar, que instigava curiosidade.

Tinha ela seus vinte e sete e ele beirando os vinte anos. Ambos encantados, sem sequer trocar uma palavra. Era o enlace dos olhos, a curiosidade por tão bela pureza .

-Quem poderia esbanjar tanta felicidade apenas vendendo flores? Pensava ela.

Cada encontro era cada vez mais esperado, e ela mantinha-se firme. A rua se perfumava quando ele passava. Tudo se encontrava: bichos, pessoas, objetos...Mas era ela que via, que se encontrava; nada mudava, somente ela.

Certo dia ele não mais passou, deixou de clarear a rua que escurecia com o fugir do sol. Ninguém sabia responder para onde teria ido, por que não mais freqüentava a redondeza. E ela, que acreditava que as flores não traem, foi frustrada por tão impossível existência.

Na verdade tudo à sua volta era obscuro, medonho, escondido embaixo de fileiras de livros empoeirados. Esquecidos como conceitos velhos.

Nada fazia sentido senão a presença de tal ser. Tudo que ela poderia esperar àquela altura de sua vida seria ter a certeza sobre a existência de alguém que não tivesse perdido tudo que ela mais prezava. Suas gavetas cheias de recordações tristes voltavam a existir sem a presença dele. Tão pouco era o tempo que ele cruzava a esquina, lhe presenteava com flores e seguia. Um tempo eterno e suficiente para fazê-la fugir da sua realidade. Em si, a moça entendeu que era o fim. A hora certa para buscar algo que lhe trouxesse de volta tudo de mais pleno que ele trazia.

Era hora de tirar a poeira dos livros, de limpar as gavetas e despejar junto com a sujeira tudo de ruim que guardava dentro delas. As roupas, que há tempos não renovava, carregavam dores que por ela foram vividas outrora. As mesmas dores que também a fizeram esquecer de cuidar de si, embora seu olhar continuasse profundo, limpo, suave; a aparência lhe oferecia muito mais anos do que na realidade tinha.

A senhora doce e que parecia carregar grandes mágoas também não mais estava em seu lugar de costume. Era um mundo bonito criado por ela que se desmoronava para que a realidade pudesse prevalecer.

As flores, somente as flores que ela acreditava ganhar dele existiam, e estavam limpas, vivas, diferente de todo o resto. No fundo, no fundo, era ela mesma quem as comprava, e fantasiava ganha-las para sentir vitalidade em algo.

Tudo não passava de pura fantasia, porém, a senhora que cabia em seus sonhos existira. Mas se fora deixando nela a capacidade de criar a sua realidade, onde só as flores e os bons seres existem.

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