Eu era uma criança cheia de sonhos e ilusões com tudo que me cercava.
Nunca gostei de bichos do tipo cachorros ou gatos, mas adorava peixes, eles me fascinavam. Tinha a ilusão de que o melhor lugar para se morar era no mar, mas os tinha em um aquário, para que estivessem mais perto de mim.
Tão leves, silenciosos, e ao mesmo tempo me diziam tanto. Sim, eu os escutava, brincava, conversava.
Eles me diziam coisas bonitas, por vezes me tiravam de um estado de humor que eu não gostava, que me angustiava.
Por vários anos os tive comigo, mas o inevitável passar das horas me fez crescer e perder tempo para o que eu mais amava. Comecei a dar mais valor ao que era novo e, agora, mais interessante.
Quando adolescente, acho que resguardei aquele silêncio que tanto me atraia, estive por um bom tempo guardada dentro de uma bolha onde só se expressavam os mais falantes, os que mais tinham sobre o que falar, e não que eu não tivesse, talvez o fardo acompanhasse minhas declarações, por isso silenciava. O silêncio sempre me acompanhou, e junto com ele a calma, a espera.
Mais adiante, quando me envolvi nos enlaces fortes da vida, mudei novamente, assim como os bons e os ruins. Mas continuei silenciosa, branda, porem, já conhecendo a angustia e o desrespeito pela espera. Falei um pouco mais, arrebanhei milhões de outros falantes que, por vezes tinham algo a me dizer, e em muito mais momentos poucos me diziam algo que me acrescentasse. Era então o acumulo de informações necessárias e desnecessárias. O vazio e o preenchimento. A compensação.
Algum tempo depois tive mais uma vez a companhia daquelas pequenas criaturas que me faziam tão bem enquanto criança. E então eu é que já não era mais a mesma. Eles continuaram sendo os preferidos, embora não mais me atraíssem como antes. Era fato. Como pode alguém mudar tanto em tão pouco tempo e deixar de dar valor a coisas que faziam parte do seu mundo? E não só os peixes faziam; tantas outras coisas foram deixadas para trás.
Já adulta conflitei com o que me causou mais dor: - entender e aceitar as circunstâncias da vida. Tornei-me um tanto mais fria, menos paciente, e entendi cada vez menos o meu limite e o do outro. Quem outrora fazia questão de sentar em frente ao aquário e ficar por horas querendo estar naquele mundo, agora não mais reconhecia prazer nisso. E foi isso que eu perdi com o amadurecimento, essa capacidade de sentar e esperar; de contemplar, talvez. De olhar as coisas de longe aguardando que o tempo desse encaminhamento, fazendo apenas o esforço de não mudar os rumos com as próprias decisões.
Estou amarga, mais superficial do que emocional. Angustiada com a necessidade de entender as imposições da minha vida. Decepcionada com a fraqueza que por vezes agora me acompanha. Não me reconheço naquela criança calma, esperançosa e forte; que por tantas vezes presenciou o indesejado e suportou com a bravura dos grandes.
Passei cada vez menos a ouvir o outro como se ele não tivesse nada a me acrescentar, mas ainda assim valido essa troca, entendo que ela é a melhor forma de crescer. Sai atropelando e digerindo tudo que me aparecia com a fúria de alguém que parece acreditar que o agora é a hora certa, sem medir espaço, tempo.
Já na lucidez do presente me pego sentido falta da infância, quando tudo era possível, quando meus peixes ainda me diziam algo sobre o próximo passo da vida, que nem era tão amarga assim. Meu mundo do aquário se desfez com o tempo e eu me perco cada vez mais do caminho que volta a ele.
Os peixes sim sempre souberam de mim.
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