Corria entre os dedos aquela vontade de ser mais, de querer mais.
Era cedo, um amanhecer lindo, com um sol sutil de primavera. Flores, aromas, vozes e sorrisos. Clarisse sequer fragilizava diante de tanta beleza exposta ao tempo. Observava discretamente o pouco que aparecia da vida em sua janela, e nada lhe fazia animar. Na verdade, ela não vislumbrava em nada um caminho pra sair daquela solidão. Era amarga, se tornara com a vida.
Poucas vezes enquanto criança corria por entre o jardim sentindo no movimento do seu vestido, que balançava com o bailar do vento, sons de um futuro que ela sequer tinha noção de como seria. E jamais parou para pensar em como o seria. O que a fazia imaginar cores lindas nas horas próximas era exatamente não imaginar. A virtude de pensar não a fazia bem.
Rotineiramente aos finais de semana era comum toda família reunir-se na casa da avó, que inexplicavelmente era para ela o ser mais lindo e encantador que podia existir enquanto possível ao convívio com ela. Existia nesse laço algo que não se pronunciava, algo que não se dizia. Eram olhares carentes e auto-suficientes simplesmente por existirem. Uma troca sem acordos prévios.
Clarisse vivia assustada, falava pouco, menos ainda se pronunciava sobre assuntos familiares e que não lhe diziam respeito. Se quando lhe diziam ela evitava, imagina quando não lhe cabia. Poucos sabiam o porquê de tanto silêncio no olhar, no andar. Era ela um vazio preenchido por escritas confidenciais. Um diário de palavras mórbidas e sussurradas em horas de encontros pessoais quando em sua melhor hora ela se sentia. Nessa hora a menina bailava entre doçuras na escuridão de um quarto escuro.
Pouco querida entre os outros por sua face sempre inexpressiva; sem cor e calor, ela sempre se mantinha distante, quieta, observando quão lindo parecia o mundo dos outros ao seu redor. Pessoas sorridentes, coradas, falantes e extravagantes. Ela desejava tudo isso, mas sentia no conjunto um ‘q’ de hipocrisia que também nunca lhe coube.
Seus pais sempre indiferentes procuravam em tudo o sentido para tanta diferença. Toda a linhagem familiar era esmiuçada a fim de solucionar ‘o problema da menina Clarisse’. Lembranças de seu comportamento enquanto criança faziam desejar uma projeção que não mais era possível a ela. Queriam no espelho a imagem da mesma criança sonhadora e dançante, que conversava com flores e cantava com os pássaros, mas em um corpo de alguém que crescera.
Inútil, não era mais a menina Clarisse, e sim a mulher que precisava de espaço para o ser.
Seu encontro com a paz era sempre quando estava com a avó. O passar das horas mais sentido e abstraído. Era nela que Clarisse se espelhava; quem ela desejava ser quando crescesse mais ainda, e mais, e mais. Um ser humano lindo, de cabelos completamente brancos, com sorriso garantido e face doce como o desejo de toda criança. Não questionava, não retrucava, olhava e entendia. Enquanto todos a criticavam e olhavam com indiferença Dona Zélia acolhia com o sinal de aprovação comum a ela. Sempre o melhor encontro de Clarisse com a vida.
Nunca nada fora pronunciado entre elas que passasse de monossílabas não menos significativas do que grandes frases. Talvez a vastidão de palavras estragasse todo o encantamento do olhar. Olhar era sensível e por si só completava.
Clarisse poderia ter se arrependido por nunca ter sido o que todos foram com avó, mas não o fez por que sentia em simples gestos grandes trocas. Diariamente ela pensava na possibilidade daquele ser um dia ir embora deixando-a sozinha e para sempre solitária. E isso aconteceu, mas Clarisse soube identificar em poucos belas palavras ditas com os olhos. Ninguém como Dona Zélia, mas outros tão especiais e sensíveis quanto, capazes de se comunicar e se respeitar entreolhares. Ela também percebeu que seu encontro ideal era com a vida, embora aquele mundo do qual ela fazia parte jamais a acolhesse como ela esperava. Daí tanto silêncio, era a espera pelo momento certo para se desligar de tudo que não lhe agradava.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Entreolhares
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Eu quero é brincar de viver!
Tenho apenas a certeza de que viver é sempre a melhor opção.
Renovar-se das quedas e reaprender a sonhar. E eu estou me guiando pela música de Guilherme Arantes, sim. Como ele mesmo escreveu: ‘a arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não’, é sempre o melhor remédio.
Eu sou tão inconstante, alias, me tornei. Horas estou completamente desencantada sobre good news, e em outros momentos estou assim, como hoje, feliz, esperançosa. Não que os problemas tenham diminuído ou acabado, até porque eles não somem, as vezes se multiplicam e outras poucas vezes diminuem, desaparecer; nunca. A verdade é que eu me permito estar assim para que as coisas não tomem rumos tenebrosos. Tentando sentir novas emoções e começando a brincar realmente de viver. Tendo a consciência de que ninguém é o centro do universo, com o objetivo de tornar maior o prazer.
Sonhar, imaginar, tentar...são os verbos que melhor simbolizam as possibilidades. Esforçar-se para sentir a vida, abrindo os braços para as novidades, ou cria-las simplesmente pelo fato de mudar. Mudança é a palavra. Tirar a vida de um ciclo vicioso, onde se sai e volta sempre pela mesma ruela. Seguir, fluir, cair, se jogar!
Semana passada eu estava numa fossa daquelas mais ‘deliciosas’ e possíveis à existência humana em termos de ‘derrota emocional’. Segui rumo à praia, sentei apreciando os transeuntes que, diferentes de mim, prezam pela saúde e corriam ao redor dos lagos da linda Orla de Atalaia. Ali, vendo pessoas diferentes e imaginando o que cada uma pensava enquanto circulava aquele lago, saquei que a minha dor poderia ser tanto maior quanto menor do que a de qualquer um, mas mesmo assim eles estavam ali, contemplando o mar, a brisa. Exteriorizando no suor preocupações e sofrimentos, quando não, até alegrias. Não senti inveja, afinal de contas eu também estava lá, mas me senti revigorada; reanimada seria a palavra. Na verdade, não se mede dor, cada ser acolhe-as da maneira que lhes cabe, isso é fato.
O mar tem para mim um significado especial, me completa, me tranqüiliza. Mas o melhor de tudo é que também ele me centraliza sobre as possibilidades da vida. Orienta sobre a imensidão de coisas possíveis ao acaso e ao propício. É o porto seguro das minhas sensações. E agora parafraseando Sophia Andresen: "Mar, metade de minha alma é feita de maresia."
Mas voltando ao foco, e retornando também a Guilherme Arantes, que nos presenteou com a música ‘Brincar de viver’, e que serve pelo menos para mim, como fonte de forças quando eu escuto o trecho: “a história não tem fim, continua sempre que você responde sim, à sua imaginação.” Aqui é quando eu me perco na delícia de poder sentir a música; de poder ouvir nela uma passagem de minha própria vida, ou ouvi-la como um incentivo para mudar os dias não tão bons. Quando não, ser surpreendida com a melodia que embala meus dias felizes. É, sem dúvida, a minha melhor companheira. Vastidão de palavras e melodias variadas que concretizam momentos.
Sem mais delongas, a ordem agora é brincar de viver e reaprender a sonhar.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Sentires.
mas fala, grita e pula.
Se contorce,
num inconstante bailar.
Minha flor é solidão,
sabores e desilusão.
Não tem coloração,
nem emoção.
Meu querer tem força,
e ao mesmo tempo é fraco.
Deseja, procura, mas não toca o inalcançável.
E se esconde, quieto e manso.
Minha angustia não tem cor,
mas é grande e notável.
Se esperneia, me alcança e fere.
Brinca, ri e faz penar.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
A fada cor de vento.
Uma fada da cor do vento parou certo dia em minha janela e soprou realidades de um futuro outrora incerto. Era, quem sabe, um sinal de alerta.
Movi objetos perigosos que pudessem facilitar um possível chamado da morte, comecei a escrever tudo que me vinha à mente, cancelei compromissos indesejados, trocando-os por horas fazendo algo que me desse prazer, ou até me dando ao desfrute do nada. Reconheci erros e perdoei-os também. Fiz boas ações, disse que amava sem esperar respostas, pulei de pára-quedas e comecei a criar ‘coragens’. Desfiz ideais, refiz poemas, despertei vontades e catei sabores. Aceitei o, até então, inaceitável, corrigi linhas tortas, ouvi canto de pássaros, deitei na grama, arrastei o sofá e dancei como alguém que se encanta pela primeira vez.
Falei coisas indesejáveis a quem me incomodava há tempos, sim, até por que a perfeição nem com o medo da morte me acompanha. Voltei a beber, a fumar, e a correr...e por que não fazer tudo de uma vez? Sempre pensei que somente os não fumantes tem fôlego pra passos longos e rápidos. A idéia não é mudar? Então façamos.
Com todas essas novas possibilidades percebi que só o medo da morte me fez mudar de hábitos e convenções. Notei que seria possível tentar antes que qualquer alguém me sopre possibilidades para um amanhã duvidoso.
Enfim acordei, pulei da cama e me senti aliviada por ser um sonho. Que somente agora se tornaria real, por que senti de perto o sabor das mudanças. Agora, sem dúvidas, eu pulo de pára-quedas sem temer altura.
Ora, eu já estive lá.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
A novidade que venha dar na minha praia.
É impressionante nossa capacidade de reverter e manipular qualquer situação amorosa a nosso favor. O fato é que, na verdade, o que vou falar ou relatar nesse texto é algo um tanto quanto mais feliz do que as cocós que tenho me metido ou que eu tivera feito questão de entrar, e que, por ventura, tenha contado aqui. Falo sobre as ‘cocós’ de uma forma geral englobando também relacionamentos (no plural entre aspas) sérios porque eles também não deixam de ser cocós, embora mais contidos, amorosos, um pouco menos conturbados...enfim, é FATO, são complicadinhos e dificeizinhos assim como qualquer relação descompromissada; quando não, enjoadinhos (não que EU tenha passado por isso, certo, amigo(s) leitor(es)? #fail Se é que vocês existem). E quem já viveu uma ‘cocó’, por mais que séria e, no entanto, não menos problemática, grita ‘uuuiii’. [senti uma assustadora manifestação, ok? Pourquoi???]
Certo, continuando.....a questão é que não tenho vivido dias fáceis, mas também pra não parecer extremista, não tão difíceis assim, sei lá da p@#$!@#$.
A certeza que tenho é a de que pretendo seguir minha vida empurrando com a barriga (e isso fica fácil no sentido mais físico da palavra =p), ou tentando decifrar o ‘código de barra’ de cada ser humano que surge à minha frente e que, por ventura, cruze meu caminho despertando em mim qualquer interesse.
O caso é que eu estou curtindo, vivendo, apreciando, decifrando, conhecendo, indagando, degustando, abstraindo, traduzindo, compreendendo...PESSOAS. Peguei-me pensando sobre a delicia de descobrir o SER HUMANO; o ser. Nada fácil, hã?
Não que isso já não tenha desde sempre sido um hábito deveras satisfatório e às vezes amargo, mas não quero continuar tentando reverter situações amorosas falidas (e não fálicas-ficadica) pro centro do que eu julgava e, no entanto, era MEU. E ai então to processando dados e decodificando meus comportamentos pra aliviar a barra de tooooodo mundo.
Em certa fase de nossas vidas ‘pecamos’ (pecado, oi?) pelo fato de estagnarmos em determinado estágio, acreditando ser ele quem vai oferecer as novas estruturas para as próximas trilhas. E que somente ele existe, e mais, que outras vidas, pessoas, seres não têm significância alem das que passaram pelo seu mundinho enquanto você esteve nela.
Então, eu parei com isso (ou estou tentando).
São outras realidades, intensidades, identificações...mas não tem como você se acostumar com a presença de alguém em sua vida e achar que ela é e sempre será o padrão que você terá pra sua vida toda, ou que a cópia dela seja a ideal pra você seguir feliz (a não ser a mãe ou o pai, e convenhamos que ambos estejam longe de despertar qualquer interesse, até por que, enfim...#complexodeedipofeelings ;).#NOT (aff, parei com o twitter depois dessa =p). Whatever, pais podem ou não servir como exemplo...mas nunca como cópias. Certo? Thanks.
Estou disposta, querendo e desejando novidade(s). Degustando sabores, vagando pelo certo e incerto, mas estou; sou!
Sou quem sempre fui em busca de um passado que não me faça repetir os erros. Que seja eu; que seja meu. E mais, que me dê tanto prazer como outrora.
É fato, viu (#marcaregistradaeenjoadinhafeelings)?! Eu não tinha parado com o twitter???
# NOT
;)
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Linha de passagem.
Uma presença qualquer coisa do tipo sem igual,
que me acolhe a espera das próximas horas,
que logo chegam e desfazem o meu melhor momento.
O vento que agora me sossega é o mesmo que outrora me inquietou,
e em outro momento somente me sossegou.
É o tempo, é o tempo que o traz.
Ele é a ponta de todos os entrelaces possíveis e cabíveis.
Aceito o inevitável mastigando o dissabor de cada segundo.
Como quem morre a cada minuto mais um pouco,
com as novas paisagens da vida.
Imagens desfeitas de suas plenitudes,
que tomam versões negativas aos olhos meus.
Composições inaceitáveis,
desconstruções de um ontem promissor.
Passado que se tornou presente por linhas distintas, restritas.
Presente que se faz vigorar refinando a essência.
Rebuscado e extinto é o que me toma;
prende minha respiração, elimina a razão.
Acelera os batimentos e angustia.
Depois se torna tranqüilo, suave e leve.
Encaixa-se perfeitamente e faz prosseguir.
Mas torna a se revirar, num ciclo indesejado e apavorante.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Flores, poeira e fantasia.
Todos os dias, a cada entardecer, ela sentava-se a espera do moço que vendia flores. Ele passava com freqüência natural em frente ao seu portão, oferecendo-lhe flores, das mais lindas e bem cuidadas, aos sensíveis transeuntes e moradores. Sempre sorrindo, leve, com ar de moço feliz, parecia não se preocupar com nada a não ser em esbanjar o pouco que lhe parecia pertencer. Não transparecia querer nada que não estivesse ao seu alcance.
Nem sempre recebia pagamento pelas flores, quase sempre um café, um pedaço de bolo que era vendido também diariamente pela senhora mais simpática da redondeza. Quem sempre lhe dava em troca de um belo sorriso, um meigo olhar de pessoa vivida e doce, e que, porem, parecia carregar grandes fardos, mas que nunca os fazia transparecer.
Ela, que aguardava pelas flores a cada por do sol, não se manifestava, sequer poderia ter por ele algo que fugisse à inocência de uma pessoa encantada com a gratuidade de belos sorrisos. Simplesmente sentava, aguardava, contemplava e seguia.
Poucos ali tinham sua sensibilidade, outrora percebida por ele, e incentivada com margaridas de cor intensa como seu olhar, que instigava curiosidade.
Tinha ela seus vinte e sete e ele beirando os vinte anos. Ambos encantados, sem sequer trocar uma palavra. Era o enlace dos olhos, a curiosidade por tão bela pureza .
-Quem poderia esbanjar tanta felicidade apenas vendendo flores? Pensava ela.
Cada encontro era cada vez mais esperado, e ela mantinha-se firme. A rua se perfumava quando ele passava. Tudo se encontrava: bichos, pessoas, objetos...Mas era ela que via, que se encontrava; nada mudava, somente ela.
Certo dia ele não mais passou, deixou de clarear a rua que escurecia com o fugir do sol. Ninguém sabia responder para onde teria ido, por que não mais freqüentava a redondeza. E ela, que acreditava que as flores não traem, foi frustrada por tão impossível existência.
Na verdade tudo à sua volta era obscuro, medonho, escondido embaixo de fileiras de livros empoeirados. Esquecidos como conceitos velhos.
Nada fazia sentido senão a presença de tal ser. Tudo que ela poderia esperar àquela altura de sua vida seria ter a certeza sobre a existência de alguém que não tivesse perdido tudo que ela mais prezava. Suas gavetas cheias de recordações tristes voltavam a existir sem a presença dele. Tão pouco era o tempo que ele cruzava a esquina, lhe presenteava com flores e seguia. Um tempo eterno e suficiente para fazê-la fugir da sua realidade. Em si, a moça entendeu que era o fim. A hora certa para buscar algo que lhe trouxesse de volta tudo de mais pleno que ele trazia.
Era hora de tirar a poeira dos livros, de limpar as gavetas e despejar junto com a sujeira tudo de ruim que guardava dentro delas. As roupas, que há tempos não renovava, carregavam dores que por ela foram vividas outrora. As mesmas dores que também a fizeram esquecer de cuidar de si, embora seu olhar continuasse profundo, limpo, suave; a aparência lhe oferecia muito mais anos do que na realidade tinha.
A senhora doce e que parecia carregar grandes mágoas também não mais estava em seu lugar de costume. Era um mundo bonito criado por ela que se desmoronava para que a realidade pudesse prevalecer.
As flores, somente as flores que ela acreditava ganhar dele existiam, e estavam limpas, vivas, diferente de todo o resto. No fundo, no fundo, era ela mesma quem as comprava, e fantasiava ganha-las para sentir vitalidade em algo.
Tudo não passava de pura fantasia, porém, a senhora que cabia em seus sonhos existira. Mas se fora deixando nela a capacidade de criar a sua realidade, onde só as flores e os bons seres existem.